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Por trás de um grande homem…

 

As minorias têm se feito ouvidas. Escrevi assim porque parece que só enfiando goela abaixo, tem-se alcançado algo. Há os que chamam de exagero o fato de não querermos mais nos calar. Eu me incluo na frase porque sou mulher e essa crônica é sobre nós, as mulheres. Rebecca Solnit, feminista e escritora de livros tocantes e reflexivos, diz: “se as bibliotecas contêm todas as histórias que foram contadas, existem bibliotecas fantasmas de todas as que não foram.” Não há dúvidas de que esse oceano de silêncios deve ser rompido!

Ultimamente, reivindicar a igualdade de gêneros parece estar incomodando muitos. É que antes todos achavam natural mulher levar cantada no trabalho; natural passarem a mão em nossas bundas no transporte público; natural o teste do sofá para conseguir o papel em filme, novela ou teatro. Mais normal ainda apanhar do marido para ver se a gente aprendia a se comportar. Mesmo que vizinhos ouvissem, eles sabiam que era “apenas” um corretivo de leve. Porque quem ama, educa, nem que seja na porrada…e assim, gerações e gerações cresceram convictas de que a mulher é propriedade do homem e da sociedade machista/patriarcal. E por falar em mulheres, como não falar das mães? Se uma criança é mal educada na rua e faz escândalo, logo ouço perguntas: “cadê a mãe dessa criança? ou ainda: “esse/essa menino(a) não tem mãe não?”. Melhor ainda é quando uma casa está bagunçada e a pergunta surge: “sua mulher está por onde que está esse caos?”. Sem falar na cultura do estupro…essa que querem, a todo custo, nos fazer acreditar que não existe, mas EXISTE! E vamos parar com a hipocrisia.

Ano após ano, mulheres incríveis vêm demonstrando sua capacidade para exercer qualquer atividade com qualidade igual (ou superior) a dos homens. Pilotam aviões, dirigem tratores, empilham sacos de cimento, dirigem empresas, comandam centenas de homens, jogam futebol, viajam para o espaço, entre outras tantas coisas…atividades que antes eram consideradas tipicamente masculinas. Ainda assim, disputas judiciais e denúncias em jornais e outros meios chegam em ondas clamando pela igualdade de salários. Um grande exemplo? o esporte, em que as diferenças são discrepantes e risíveis – para não dizer lamentáveis.

Se aumentarmos mais as lentes, perceberemos que as diferenças têm início nas relações familiares. Meninas são, desde novinhas, ensinadas a cuidar do lar quando são estimuladas a brincar de casinha, de mamãe e filhinha(o) ou ainda ajudar a mãe nas tarefas domésticas, enquanto o pai e o irmão ( se houver) permanecem prostrados em frente à TV, testemunha permanente das desigualdades e violências domésticas. Desde a gravidez, esteriótipos são impostos quando se tenta comprar algo para o bebê e esse universo, em sua grande maioria, ainda é dicotomizado em azul e rosa. Quando constituem família, as mesmas meninas que antes brincavam de casinha, são criticadas se resolvem fazer algo por si e deixam os filhos aos cuidados de outrem, enquanto os maridos são exaltados por segurarem o bebê depois de um dia “exaustivo” de trabalho. E por que isso tudo ocorre? Pelo simples fato de nos ter sido incutida a ideia de que a nós cabe o exclusivo papel de cuidar e procriar; e para os homens, viris que são, o papel do sustento. Entretanto, é de longuíssima data o fato de que a mulher, além desse papel que lhe foi (socialmente) imposto, passou a acumular funções, pois já faz alguns séculos que ela também passou a contribuir para o sustento da família, desdobrando-se para dar conta de trabalhar dentro e fora de casa. Para nos acalmar e dizer que é possível, começaram a nos fazer acreditar que todas podemos ser a Wonder Woman. O intuito original feminista saiu pela culatra, pois, infelizmente, não temos os super poderes da heroína. Logo, no mundo real, dar conta de ser mãe, esposa, dona de casa, profissional fora do lar, filha, irmã, amiga, religiosa, e sei lá mais quantas obrigações, é humanamente impossível. A real é que estamos sempre sendo julgadas. Não correspondemos jamais às expectativas. Estamos sempre aquém do que esperam de nós. E se não bastassem os julgamentos, nossa liberdade não é verdadeira. Vivemos uma pseudo-liberdade de escolha, tendo em vista que, se cometemos o desatino de optarmos por não nos encaixar nos padrões patriarcais, estamos fora da curva e representamos perigo. Um exemplo? Fácil: é só se ouvir que uma amiga decidiu não ter filhos para que todos os olhos se voltem para ela e perguntem (já com ares de condenação) “Por que você não quer ter filhos, não pode?” Se ela resolve dizer que simplesmente não quer, o apocalipse acontece. “Mas você não gosta de criança?” Ou seja, estamos todas condenadas à maternidade? Não podemos fazer outras escolhas? A felicidade só existe para as que procriam? É muito difícil sustentar uma convicção que vai de encontro aos padrões. Isso se estende para as mulheres que não querem casar, para as que casam/namoram/vivem com outras mulheres, para as solteiras, para todas aquelas que não se “encaixam”. E aí não posso deixar de falar sobre a disposição sobre nosso próprio corpo. Expliquem-me: por que não podemos escolher o que queremos fazer com nosso próprio corpo? E não me venham com explicações/convicções religiosas porque, se bem me lembro, o Estado é LAICO. Até quando o aborto será um tabu? Até quando vamos preferir que milhares de mulheres morram ou abandonem seus filhos porque não se pode escolher levar ou não a gravidez adiante. E não adianta falar com suas convicções de classe média. Ponha-se no lugar das mulheres miseráveis. A realidade delas é discrepante da nossa, portanto, não é possível julgá-las usando nossos mesmos parâmetros; nem por isso desmerecem o respeito e o direito de escolher o que fazer consigo, já que talvez essa seja a única escolha possível diante de tantas misérias. O corpo da mulher não é do homem, não é da sociedade, não é da Bíblia. O corpo é de cada mulher e só ela deveria dizer o que quer fazer com ele, mais ninguém. Quando releio o que estou aqui escrevendo, recinto-me ter nascido mulher, porque jamais saberei o que é liberdade, pelo menos não a mesma liberdade que os homens gozam. Eles não se preocupam com a roupa que vão vestir e sair por aí, já que estando cobertos ou não, ninguém vai estuprá-los. Eles não se preocupam em chegar sozinhos nos lugares porque jamais vão receber olhares críticos de “o que este cara está fazendo sozinho? será que é de programa?”. Os homens dificilmente vão abrir mão de algo incrível profissionalmente pelos filhos. Nenhum homem vai se esforçar muito mais para demonstrar que não é apenas um rosto bonito, mas um ser pensante. Homens não se preocupam em estar na balada e beber demais e com isso correr o risco de, na volta para casa, serem estuprados pela pessoa que os levou, seja um amigo, um taxista, uber, motorista, etc. É fato que nós mulheres estamos sempre em estado de alerta. Uma eterna vigília. Pois o descuido pode causar danos irreversíveis psíquicos e/ou físicos. É como se ao nascer recebêssemos um peso a mais para carregar o resto da vida, tão-somente pelo fato de termos uma vagina entre as pernas. O ódio, acreditem, muitas vezes é gratuito e há números para comprovar o que aqui escrevo. É só dar um Google. Da mesma forma que tenho lido que é preciso não apenas ser contra o racismo, é preciso ser antirracista, falo o mesmo pelas mulheres: é preciso ser mais do que contra o machismo, é preciso que sejamos antimachistas e não mais nos calarmos. É preciso que paremos de dizer frases como: por trás de um grande homem, existe uma grande mulher, pois sinceramente espero que por trás de um grande homem só exista a consciência dele e que se uma mulher optar por estar com um homem, que seja para estar ao lado e não por trás. Não à toa o início dessa frase é o título da crônica. Cresci ouvindo-a como elogio. Não é! Nunca foi e jamais será! É mais uma das tantas formas de se dizer que nosso lugar é importante mas nem tanto, já que, implicitamente, ela nos diz que é nosso dever nos conformar em sermos invisíveis.

Por fim, espero um dia o oceano de silêncios se transformar em deserto e nós então possamos alcançar direitos genuínos, os quais nem deveriam estar sendo buscados. 2017 e ainda estamos lutando pela igualdade de salários, pela disposição sobre o próprio corpo, pela liberdade de ir e vir sem sermos atacadas; pela liberdade de escolhas de sermos o que tivermos a fim…gostaria de ainda em vida ver e gozar da realidade pelas quais tantas mulheres lutaram e morreram. Não podemos permitir que tenha sido à toa.

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