Por trás de um grande homem…
30 de novembro de 2017
Espelho
16 de janeiro de 2018

Onde é lá?

21 de Dezembro, 10h. Última sessão de terapia de 2017. Cheguei sem a intenção de fazer retrospectiva, mas o presente que eu havia escolhido para dar à minha analista – ato falho – me levava a falar do ano que passou e do que está por vir. Não queria falar disso, mas entreguei a ela – como um carinho por me suportar nos últimos doze meses – um planner, uma agenda própria para organizar o ano que está chegando. “Olha só! Além de querer me fazer lembrar de você todos os dias, ainda deseja que eu seja mais organizada?” me disse rindo e muito feliz com o presente…”na verdade, eu dei para você algo que eu preciso me livrar: minha loucura por planejamento. Preciso não criar tantas expectativas para 2018″, respondi com um sorriso tímido. “Hmmmm…o que está lhe incomodando, Myriam?” E a sessão havia começado. Verborrágica, mal respirei e tratei de ali, naquela última oportunidade de me rever,  desengasgar.

Decidi, em dezembro de 2016, que em 2017 eu me dedicaria ao ofício de escritora. Mesmo publicando livros desde 2014, eu senti a necessidade de me profissionalizar. Cheguei das férias resoluta. Me inscrevi em um curso de escrita criativa que me revirou a mente, me fez conhecer pessoas sensacionais e tomar a decisão de me afastar um pouco da vida social que eu levava para que eu tivesse tempo de isolamento e, consequentemente, de produção. Não foi fácil abrir mão do mundo que eu já conhecia (e até gostava) para viver o desconhecido e às vezes sombrio mundo da escrita. Manter-se isolado, por vezes, é doloroso; nem sempre as pessoas a sua volta compreendem que o problema não é elas, mas que simplesmente a vida é feita de escolhas e eu tinha feito a minha. Com isso,  pela primeira vez, surgiram contos que não eram do universo infantil, histórias que nunca pensei em escrever, mas que foram brotando ao longo dos meses do curso. Decidi encarar o mundo dos concursos literários, os quais, apesar do resultado negativo, foram definidores para eu entender que reescrever é imperativo e que a aprovação vem com o tempo. Decidi, também, mergulhar nas minhas memórias de infância e me dilacerei com algumas delas para dar voz a personagens. Me tornei mais introspectiva; aprendi a escutar mais e a observar mais porque tudo podia se tornar material para um conto. Perdi a conta da quantidade de livros que li em busca do saber. Em paralelo, publiquei livros digitais; publiquei um conto e um poema em antologias; participei de programas de TV a fim de contar a minha pequena trajetória de advogada a escritora; e hoje me encontro no início de um curso de preparação do romance, onde descobri que as dificuldades sempre podem ser maiores quando se deseja ir além…no meio disso tudo, vi meus filhos crescerem; recebi o apoio incondicional do meu marido; confirmei o amor de amigos maravilhosos, cuja generosidade em suas críticas me ajudou a publicar o conto na antologia; fiz novos amigos, que como eu, buscam seu lugar na literatura. E como tudo na vida, há o lado B. Nos maus momentos (que não foram poucos),  tive vontade de desistir quando, por exemplo, recebi nãos de alguns concursos. Chorei, senti raiva, porém, recebi o apoio de pessoas queridas para eu não desistir, me dizendo que nenhum caminho é fácil, mas que, sem dúvida, chegarei lá. Foi aí que fui interrompida com a pegunta: “e onde é lá, Myriam?” Calei-me. E “onde é lá?” a pergunta que martelou na minha cabeça dezenas de vezes nos meus poucos segundos de silêncio. Respirei o mais fundo que pude e respondi: “eu não sei. Talvez quando eu estiver em uma grande editora, eu me sinta lá…” “Discordo. Disse com firmeza a analista. A meu ver, com tudo que você me relatou em todos esses meses aqui nesse divã, você chegou lá. O lá é tudo isso aí que você acabou de me dizer. Ou não? A editora ou o concurso pode ser um troféu, talvez. Mas o lá já é onde você se encontra.” Permaneci em silêncio, olhando para a estante que fica de frente para o divã onde me coloco todas as quintas-feiras, devidamente adornada com livros de psicologia, com o quadrinho do Freud, com um mini divã rosa-choque, o qual me hipnotiza desde a minha primeira sessão e com um baldinho cheio de lápis coloridos, que ela possivelmente usa com as crianças. Enquanto eu observava todos esses objetos, os quais pareciam também me observar, pensei: “será mesmo preciso um troféu para se sentir vencedora? O percurso e as pequenas vitórias do dia a dia já não são suficientes? Descobrir o que se quer ser não é bem mais valioso do que o reconhecimento de terceiros? Enquanto eu me fazia essas perguntas, revisitei muitos lugares e muitas emoções que senti ao longo de 2017 e pude então me sentir grata. Afinal, fazer o que amo, tocar as pessoas de alguma forma com minhas palavras, ainda que eu não tenha conquistado o troféu, definitivamente, é lá! Portanto, não há dúvidas, eu cheguei! Não no cume, não no topo, mas o mais longe onde eu jamais havia pensado em estar. E, por tudo isso, só posso agradecer o ano tão especial que tive e desejar um FELIZ 2018 para todos nós! Que seja com saúde ao lado de quem amamos. Que seja cheio de abraços de quem nos importa. Que seja próspero naquilo que mais desejamos. Obrigada a todos que estiveram presentes em minha vida, torcendo e me acompanhando. Ano que vem, muitas boas novas!!!

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