Onde é lá?
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Poema <3
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Espelho

Essa manhã, quando levantei, cumpri o ritual do acordar: abri as cortinas, deixei que a luz do sol entrasse, caminhei (cambaleante) para o banheiro, olhei-me no espelho e, não sei se vinda de um sonho, vi-me criança: assustada, cheia de medos, recusando-se a crescer. Essa criança falava comigo, como se fosse um eco: “cresça, esça, esça”. “Pare de medo, edo, edo”. Quanto mais ouvia, mais o medo crescia. Lembrei que eu tinha medo de cair e por isso era avessa a perigos. E quando a vontade correr e pular era maior que o medo de cair, eu me soltava, mas, para meu desespero, eu caía e me machucava e então prometia a mim mesma que não voltaria a correr ou pular porque não queria sentir aquela dor novamente. Conforme fui crescendo, percebi que tudo o que eu queria conquistar, envolvia risco de sentir dor. E então eu ficava numa dúvida danada se eu enfrentava o medo de me machucar e ia atrás da conquista ou permanecia segura. Mamãe não costumava dizer, “para”…ela costumava dizer, “vai” porque sabia que eu era cautelosa demais e precisava do empurrão. E quanto mais eu crescia, mais eu descobria que conquistas e dor caminham juntas. Uma quase não existe sem a outra. Escolher um amor, por exemplo, que risco! Eu tentava me blindar, mas não adiantava, em algum momento eu acabava sofrendo. Se eu me voltava para o trabalho, era a mesma coisa. Sempre tinha um desafio e volta e meia eu também me machucava. Aí achei que tendo filhos, seria tanto amor que não sofreria. Ledo engano…descobri que quanto maior o amor, maior é o sofrimento que ele causa. Ter filhos dói MUITO! Então, depois de ter escolhido um amor, por duas vezes uma profissão, por duas vezes ser mãe, por uma porção de vezes ser amiga, entendi que as dores fazem parte de viver. E que quem se blinda demais, passa incólume, porém incólume não só de sofrer, mas também de todas as coisas bacanas que viver sem tanta proteção permite. Afinal, já dizi Rubem Alves: “ostra feliz não faz pérola”.

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