O berço
10 de agosto de 2018

Empatia

Se eu voltasse no tempo e tivesse um encontro com a Myriam de dez anos atrás, provavelmente passaria reto por mim mesma tamanha a mudança. Afora as linhas que ganhei perto dos olhos e na testa, sem falar das olheiras que a cada ano escurecem mais, a mudança estética não é tão avassaladora quanto a transformação que ocorreu por dentro. Primeiro, a chegada de um filho, que por si só me rompeu de tantas maneiras que até hoje sigo me juntando. Depois, o início da análise, divisor de águas: antes eu era quase cega, agora sim passei a enxergar e com uma paleta de cores que vai desde a mansidão até a tormenta que te derruba e faz achar que não há saída. Por mais que mexer nas nossas caixas seja muito duro, pior é passar por esta vida sem saber quem se é de verdade. Enfrentar a si mesmo é um ótimo exercício que te prepara para enfrentar o outro e a vida. Mas, a terapia não fez o trabalho sozinha. Ela teve uma ajuda que considero tão ou mais importante que ela: os livros. Passei anos imersa em leituras jurídicas, necessárias à época em que pertencia a essa área, mas tal como acontece com todos aqueles que não encontram tempo para ler nada além da sua área, fiquei engessada. As primeiras leituras para além do Direito, começaram a criar fissuras no gesso e em pouco tempo as paredes foram derrubadas. É um caminho sem volta. Digo isso porque como sou curiosa, não gosto de ouvir algo e me contentar com “porque é assim desde sempre…” Nos últimos anos perdi a conta de quantas discussões travei sobre o feminismo, sobre os direitos das minorias, sobre o abismo social etc. E diversas e diversas e diversas vezes, fui atropelada pela frase “é que agora é muito mimimi.” Alguém que fala: “mas pra quê feminismo negro? Não devia ser um só?” Eu também achava isso até me deparar com os escritos de Toni Morrison, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, Chimamanda Adichie, Djamila Ribeiro e tantas outras mulheres negras que ao contar histórias ou ao explicar suas pesquisas, fazem-nos repensar tudo o que achávamos que sabíamos. O mesmo se dá em relação às minorias e às causas sociais que parecem estar dissociadas do planejamento do atual governo, infelizmente. Quando decidimos sair da comodidade e do conforto do lugar que conhecemos e vamos atrás de conhecer outros fatos, outras versões da mesma história, passamos a entender o que antes nos parecia bobagem e o tal mimimi. É um processo de reeducação que leva tempo, dói, mas extremamente necessário. Eu diria que em dias como os que temos tido, faz-se URGENTE! É preciso levantar a cabeça e tirar os olhos do umbigo e olhar para os lados, para frente, para trás, porque em todos os lugares há os gritos daqueles que precisam ser ouvidos. Jamais poderei falar sobre o sofrimento que uma mulher negra passa porque não ocupo seu lugar de fala. Todavia, posso estar ao seu lado, apoiando e ajudando que sua voz seja ouvida. É preciso que deixemos de ser apáticos e nos tornemos empáticos com a dor do outro. É só querer.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *